Review: Coletti 115mm f/6 Dobsoniano

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Há algum tempo recebi meu refletor newtoniano de 115mm f/6 dobsoniano de mesa fabricado pelo nosso mestre ATM Sandro Coletti.

Como tenho um Celestron CPC 1100 Edge HD que pesa quase 50kg preciso de um telescópio menor e mais leve para observações casuais e que tenha excelente qualidade, aqui entra em cena esse maravilhoso instrumento feito totalmente em terra brasileira.

Nesse review pretendo falar da experiência que tive com esse dobsoniano de mesa, pontos positivos e negativos, o que vai ajudar o inciante na escolha  do Coletti 115mm f/6.

1- Construção do tubo ótico (OTA)

O OTA realmente é muito leve, por ter peças feitas em impressora 3D e material em ABS deixou ele com apenas 2,2kg , porém achei as peças bem robustas, como a aranha , célula do primário, sapata para buscadora, dovetail,  partes da montagem e focalizador, o tubo é de alumínio o que o deixa leve e resistente evitando problemas como flexão do tubo , o que pode acontecer com tubos mal projetados. O tubo mede 62cm de comprimento por 13cm de diâmetro.

Na “boca” do OTA foi feito um anel para fixação da tampa, evitando a entrada de poeira e protegendo a óptica, tanto o anel quanto a tampa são de plástico  ABS também, bastante sólidos.

A aranha do 115mm tem o formato curvo das hastes o que acaba não gerando spike quando se observa estrelas por exemplo, o que deixa mais interessante esse tipo de observação.

Para a colimação do espelho secundário segue o padrão dos newtonianos, com os três parafusos de ajuste e o central para regulagem da distância do secundário ao centro do focalizador, também uma coisa legal é que o espelho secundário não é colado na sua célula, mas seguro por uma  pinça de ABS , o que é bastante interessante, evitando algum tipo de deformação que pode ser causado se o espelho secundário for mais finos, ainda mais quando são colados diretamente na célula.

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Retirando a célula do primário, notei que o espelho é colado diretamente no seu suporte, como o espelho primário tem 19mm de espessura não sofrerá nenhum dano por flexão ou outro tipo de problema, pois tem uma espessura excelente pra esse diâmetro, o adesivo dupla face que deixa o primário colado parece ser de boa qualidade prometendo dar segurança para o primário.

A aluminização é bem feita e não possui falhas ou riscos, e pode durar alguns bons anos se bem cuidado.

Os botões de colimação do primário são  práticos, precisos e tem bom tamanho para manipular, na minha opinião poderia ter mais três parafusos para fazer o bloqueio depois de colimado , assim pode durar mais tempo sem precisar de colimação frequente pelo iniciante, visto que qualquer esbarrão em um desses parafusos já é o suficiente para descolimar o sistema.

O espelho primário não tem marcação central para ajudar na referência da colimação do primário em relação ao secundário, para o iniciante poderia ser uma boa, ,visto  que muita das vezes sofre um pouco até pegar o jeito da colimação,  acabei fazendo uma marcação com adesivo, ajuda bastante a ter uma referência na hora da colimação.

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Marcação do primário
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Botões de colimação

O focalizador do Coletti 115mm f/6 é um dos pontos fortes, além de ser helicoidal não rotativo( não gira os acessórios usados quando se focaliza) também pode ser usado  no modo deslizante ajudando a ter um curso bem grande para focalização, também em ABS, apenas o barril 1.25″ é de alumínio, suave e bem feito , com parafusos de aperto deixando as oculares e outros acessórios bem seguros.

No modo helicoidal a suavidade e precisão é boa mesmo quando usei binoviewer com peso de 700gr e oculares zoom, chegando a quase 1,1kg.

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A sapata para buscadora é padrão podendo ser usada a maioria das red dot e buscadoras ópticas, adquiri uma buscadora óptica de 8x21mm para esse modelo, pois como peguei de segunda mão veio sem buscadora.

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2- Montagem Dobsoniana de mesa

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Quando o astrônomo amador John Dobson inventou essa montagem ele pensou em ter redução de custo, menor peso e uma  montagem precisa para seus newtonianos.

Na maioria das vezes quando o OTA é muito grande e pesado as dobsonianas possuem dois “braços”, já nos modelos onde o OTA é  menor e leve não há necessidade do uso de dois braços, sendo assim, a montagem  dobsoniana do Coletti 115mm f/6  foi projetada para ter apenas um braço, mantendo precisão no acompanhamento manual e movimentos gerais.

O material usado para a confecção da montagem é MDF laminado, nas peças do eixo de altura o material usado é ABS.

Uma das vantagens dessa montagem é o uso de rolamentos em ambos os eixos, alguns modelos industrializados possuem pastilhas de teflon e movimentos por fricção, com passar do tempo e desgaste do teflon os movimentos acabam deixando a desejar.

No eixo de azimute o rolamento axial deixa os movimentos suaveis ao ponto de ser empurrado com a ponta do dedo sem muito esforço.

Quando se toca no tubo, as vibrações param em 3 segundos, o que é um bom valor para uma montagem com um “braço” .

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Rolamento Axial

Outra coisa que achei bem legal é que no eixo de altura possui botão  para regulagem de tensão, podendo ser apertado ou solto dependendo da necessidade e acessório usado no momento.

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Botão de ajuste da tensão

O dovetail é padrão Vixen em ABS com comprimento de 18cm, na minha opinião poderia ser mais comprido, para poder ser usado com acessórios de peso maior e fazer um balanceamento mais preciso quando se tem acessórios mais pesados, o iniciante por vez irá usar apenas oculares padrão, mas conforme vai evoluir acabará pegando itens mais pesados , assim além do balanceamento mais preciso não terá a necessidade de apertar em excesso o botão de tensão.

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Até aqui falei dos componentes do Coletti 115mm f/6, daqui pra frente falarei sobre as observações e astrofotografias obtidas com esse maravilhoso telescópio.

3- Observações visuais e Astrofotografias

Na primeira noite que observei com o Coletti 115mm f/6 notei que a montagem dobsoniana precisava de uma base firme para poder aproveitar bastante as visualizações, então usei uma bacada que tenho aqui que  pesa quase 15kg, o que deixou a montagem com a menor vibração possível, fica a dica para o iniciante.

Usei para  visual  o Binoviewer ELS com oculares Celestron Zoom 8-24mm,  oculares StarGuider Flat Field 12mm e Focal Extender 2x  da Explore Scientific para altas amplificações.

Usei tanto a montagem original quanto a CPC  para as observações visuais, pois aproveitei para fazer alguns teste ópticos como Ronchi e Star Test, usando o acompanhamento da montagem computadorizada.

Falarei sem muitos detalhes dos objetos observados para não deixar o review muito longo e cansativo, será apenas uma ideia curta das possibilidades do Coletti 115mm f/6.

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A-Observações visuais.

Nesses meses que estou com o Coletti 115mm f/6 foram poucas as noites com céu apropriado para as observações visuais e astrofotos, na maioria só chuva ou céu nublado, mas nas noites com boas oportunidades pude observar vários objetos celestes, passei por alguns objetos mais fáceis como os de Messier que estão visíveis nessa época, Júpiter, Saturno  e alguns aglomerados globulares e abertos de maior brilho.

Estrelas  são vistas pontuais em foco, com seeing bom se vê claramente o disco de Airy e os anéis de difração , estrelas duplas mais fáceis é um show a parte, pela abertura  algumas duplas não são resolvidas com facilidade, como Sírius, que tentei, mas não consegui, talvez por motivo do espalhamento da luz produzida pelo spike formado pela aranha curva.

1- Observações de nebulosas, galáxias e aglomerados de estrelas

Primeiro objeto que observei com o Coletti 115mm f/6 foi a nebulosa de Órion (M42) , usando apenas 60x se nota a nuvem difusa e tênue dessa nebulosa,usei amplificação de 116x e ainda a nebulosa estava inteira no campo de visão, passando a ver a mancha difusa com maior brilho e sua forma, com binoviewer e amplificação de 116x é simplesmente magnífica.

Passei também em Ômega Centauri (NGC 5139) e apesar de 115mm de abertura , tive uma boa visão desse aglomerado globular, nota- se uma bola desfocada no centro com estrelas nas borda não resolvidas, utilizei amplificação de  60x até 116x ( usando o Focal Extender de 2x)

Outro aglomerado que observei foi a Caixinhas de Jóias (NGC 4755),  incrível como se nota as diferentes cores das estrelas desse aglomerado aberto, de cores azuis, amarelas, brancas e vermelhas.

Vale falar um pouco sobre algumas galáxia observadas, exemplo para M65 e M66 em Leão, ambas são vista usando a visão lateral e local escuro, M95 também do mesmo modo, as três galáxias em leão.

Outra galáxia que observei foi Sombreiro (M104), todas as galáxias, com algumas exceções são vista com visão lateral com o Coletti 115mm f/6, no meu caso além dessa técnica usei em quase todas as observações de DSOs apenas a ocular StarGuider Flat Field 12mm, com e sem o binoviewer para poder manter um brilho maior em objetos tão tênues.

Um objeto que achei bem interessante foi o Fantasma de Júpiter NGC 3242, com 175x é bem brilhante e mostra um tom azulado.

Não há necessidade de prolongar essa seção, cabe ao inciante criar sua própria lista e fazer suas observações, é gigante as possibilidades de observação com o Coletti 115mm f/6.

Todas as observações feitas com binoviewer achei mais interessante que na visão monocular, mesmo com a distribuição da metade do brilho para cada olho achei mais proveitosa as observações com dois olhos abertos, mesmo quando observei objetos mais tênues, porém para o iniciante que provavelmente não gastará muito no começo, as observações monoculares não deixam nada a desejar.

2- Estrelas duplas

Pode parecer que observar estrelas duplas com aberturas menores não seja interessante, mas para uma vasta quantidade dessas estrelas é algo bastante satisfatório, observei algumas duplas que foram fáceis de “separar” usando o Coletti 115mm f/6 e outras nem tanto.

Falarei de algumas que observei:

145 Canis Majoris, essa dupla na constelação de Cão maior é bem resolvida e a cor delas é azul claro e a outra alaranjada, com 30x é bem fácil separar, um bom alvo para o Coletti 115mm f/6.

54 Leonis, essa achei bem mais interessante, mesmo com 60x já se consegue separar esse par, com 116x melhora bastante a visualização, ambas de cor esbranquiçada.

Mintaka (Delta Orionis), essa é bem tranquila e mais fácil de localizar na constelação de Órion, a estrela maior tem cor alaranjada e sua companheira um azul claro, com 60x de amplificação.

Existe uma lista enorme de estrelas duplas que o iniciante poderá observar, usando programas como o Stellaruim ( https://stellarium.org/ ) pode achar sua localização e assim fazer suas próprias observações.

3- Observações Planetárias e Lunar

Aqui a parte que mais gosto, observações planetárias e Lunar.

A- Lua

A nossa Lua, mesmo com telescópio de abertura muito modesta já mostra muitos detalhes, com o Coletti 115mm os detalhes são muitos ricos, com amplificação baixa de 60x o disco lunar cabe  inteiro no campo da ocular e fica muito interessante poder ver principalmente quando o disco está 100% iluminado pelo Sol.

Com amplificações maiores, acima de 150x já passa a ver mais detalhes como os picos das crateras, ranhuras e crateras dentro de crateras maiores. Levando a amplificação ao máximo se nota a estrutura de várias crateras como por exemplo Copernicus, Theophillus dentre outras.

Usando o Binoviewer ELS não acreditei nas observações que obtive do nosso satélite natural, com os dois olhos tudo fica mais fácil,  mesmo a 100x se vê o disco lunar inteiro como se eu estivesse sobrevoando a Lua, imagens que ficam gravadas na mente pra toda a vida pela sua imersão de detalhes e seu efeito pelo uso do binoviewer.

B- Planetas

Nessa época os planetas visíveis e mais acessíveis são Júpiter e Saturno.

Com amplificação de apenas 60x em Júpiter notei duas faixas e a GMV ( Grande Mancha Vermelha ) com um pouco de dificuldades, passando para 175x, as coisas melhoram e muito podendo notar com facilidade a GMV e as principais faixas com tom de laranja além das 4 luas galileanas que sempre são um show a parte nesse sistema.

Quando Júpiter mostra outra face de sua atmosfera não consegui ver maiores detalhes que as faixas principais.

Mesmo com 175x as luas Galileanas ficam visíveis no campo da ocular, algo que é muito legal, pois é possível notar dia após dia a posição de cada uma delas.

Saturno com 175x ficou bem evidente a divisão de cassini no seu anel, também pode -se observar sua lua Titan, não consegui observar nenhum detalhe na atmosfera, apenas sua cor amarelada.

4- Astrofotografia Lunar e Planetária

Pra fazer esse tipo de astrofoto, usei além é claro do OTA, uma câmera dedicada da ZWO (ASI224MC) e para amplificações maiores um Explore Scientific Focal Extender 2x que não é o ideal, nesse caso o ideal seria uma barlow 5x.

A montagem nesse caso foi necessário uma azimutal com acompanhamento sideral, manualmente fica muito difícil fazer o  tracking com uma câmera com sensor pequeno como na ASI224MC.

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Coletti 115mm f/6 e montagem CPC computadorizada

Segue abaixo alguns registros da nossa Lua e de alguns planetas que estavam visíveis nessa época que fiz esse review.

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A imagem acima e abaixo foram  usadas imagens de algumas capturas e montado o mosaico com programa de edição, como a DF do Coletti 115mm é f/6 ficou muito fácil fazer esse tipo de imagem.

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Sinus Iridum com o Coletti 115mm e ES Focal Extender 2x
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Cratera Kepler

Abaixo seguem os planetas Júpiter e Saturno, condições nada adequada naquele dia, porém é possível ver bastantes detalhes nas imagens.

2019-03-30-0714_9-IR-Jup_l4_ap21 - Copia (2)

2019-03-30-0819_7-IR-Jup_l4_ap17 (2)

2019-03-30-0748_9-UV-Sat_l4_ap14 (2)

Como pode ser visto nas imagens acima, mesmo em condições ruins o Coletti 115mm f/6 se saiu muito bem, para um telescópio pensado e desenhado pra iniciantes e apenas para visual ele se sai maravilhosamente bem pra astrofotografias.

Astrofotografia de céu profundo não tive coragem de fazer , pois me falta equipamentos, acessórios corretos e conhecimento dessa parte, mas acredito que outros farão imagens desses objetos que são fascinantes também.

Espero ter ajudado o iniciante na escolha do seu primeiro telescópio, atualmente no mercado brasileiro não se acha um telescópio de 115mm com essa qualidade e preço muito acessível.

Bom, termino aqui mais um review, espero que tenham gostado, qualquer sugestões, criticas estou a disposição.

Céus limpos a todos e boas observações.

 

16 comentários sobre “Review: Coletti 115mm f/6 Dobsoniano

  1. Wellinton Bruno

    Olá, Ecleido, tudo bom? Primeiramente, muito obrigado pelo review. Super completo e ajudou muito na minha decisão por um desse. Estava entre ele e um skylife (que descobri ser um toya disfarçado) de 114mm e acabei me decidindo pelo Colleti mesmo. Mas ficou uma dúvida: Você falou sobre aumentos de 60x até 175X. Como você consegue esses aumentos? A conta que faço, e acredito então estar errada, é: 115mm dividido pela ocular e multiplicado por uma barlow, se for o caso. Para uma ocular de 6mm e uma barlow 3x, conseguiria: 115/6*3 = 57. Estou errado nessa conta? Um outro ponto: Você tem alguma foto que registrou com esse telescópio para compartilhar conosco? Obrigado novamente.

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    1. Olá Wellinton, isso mesmo, com o 115mm e a ocular de 12mm consegui arredondando 60x e com a ocular zoom a 8mm mais o focal extender 2x foi a 175x 700/8×2…para saber a amplificação se fosa o distâcia focal, no caso do 115mm do Coletti é f/6 ou seja 700mm de distancia focal, esse que se usa pra fazer o cálculo

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  2. Gildásio Amorim

    Olá Ecleido! Muito bom o seu review! Parabéns! Coletti é alto nível!
    Em relação ao focalizador e secundário, quais as suas medidas?
    Obrigado!

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